Campo Grande pode aquecer menos que outras cidades tropicais, aponta estudo
Pesquisa com 104 municípios mostra que Capital de MS deve ter ilha de calor de menor intensidade
| INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS
Cidades tropicais devem sentir de forma cada vez mais intensa os efeitos do aquecimento global, mas algumas podem apresentar comportamento diferente. É o caso de Campo Grande (MS), que aparece em um estudo internacional sobre calor urbano com uma característica específica. Isto porque, embora a temperatura também deva subir nas próximas décadas, a Capital de Mato Grosso do Sul pode ter redução relativa da intensidade da ilha de calor urbana em comparação com muitas cidades tropicais.
A conclusão faz parte de um estudo realizado por cientistas da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, que analisou 104 cidades de médio porte em regiões tropicais e subtropicais, com população entre 300 mil e 1 milhão de habitantes, predominantemente em regiões afetadas por monções, como a Índia, a China e a África Ocidental.
O objetivo foi entender como o fenômeno da ilha de calor urbano, quando áreas urbanas ficam mais quentes que o entorno rural, pode mudar à medida que o planeta se aproxima de 2 °C de aquecimento global.
Campo Grande entra no estudo justamente por apresentar características semelhantes às cidades analisadas: clima tropical, crescimento urbano recente e população dentro da faixa considerada pelos pesquisadores.
Tendência global - O estudo “Aquecimento amplificado em cidades tropicais e subtropicais sob um cenário de 2°C de mudança climática' foi publicado em fevereiro de 2026 na revista científica da National Academy of Sciences, PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
De acordo com o estudo, a temperatura média da superfície urbana pode aumentar entre 1,5°C e 2°C durante o dia em cidades como Patiala, na Índia, Assiut, no Egito, e Shangqiu, na China. No Brasil, as projeções indicam elevação ainda maior em alguns municípios como Rio Branco (AC), que pode registrar aumento de até 3°C; enquanto Ribeirão Preto (SP), Franca (SP), Uberaba (MG) e Cuiabá (MT) podem ter alta próxima de 3°C. Já Piracicaba (SP) deve apresentar elevação de cerca de 2,2°C, e Caruaru (PE), aproximadamente 2°C.
De forma geral, o estudo indica que 81% das cidades analisadas devem apresentar aumento na intensidade da ilha de calor urbana. Em média, o aquecimento nas áreas urbanas pode ser cerca de 0,4°C maior do que o observado nas áreas rurais do entorno.
Considerando um cenário de 2°C de aquecimento global, os pesquisadores estimam que aproximadamente 16% dessas cidades podem registrar taxas de aquecimento entre 50% e 100% maiores do que as observadas em suas áreas rurais vizinhas
Isso ocorre porque o ambiente urbano concentra elementos que acumulam calor, como asfalto e concreto, pouca vegetação, menor evaporação de água do solo, calor gerado por veículos e equipamentos urbanos. Conjunto de fatores que faz com que as cidades retenham mais calor do que as áreas naturais ao redor.
Exceção - No caso de parte da América do Sul, incluindo regiões do interior do Brasil, os resultados mostram um comportamento diferente. Nos mapas apresentados na pesquisa, áreas do Centro-Oeste brasileiro, como Campo Grande, aparecem com possível enfraquecimento da ilha de calor urbana em cenários de aquecimento global.
Conforme a pesquisa, o fato não significa que a cidade ficará mais fria, pois a temperatura ainda deve subir, acompanhando o aquecimento do planeta. O diferencial em relação às demais cidades estudadas é que as áreas rurais ao redor podem resfriar relativamente mais, diminuindo o contraste entre cidade e campo.
O estudo demonstra que o fato pode ocorrer porque mudanças ambientais favorecem maior evapotranspiração da vegetação e aumento da umidade do solo nas áreas naturais, o que contribui para resfriar o ambiente rural.
Aquecimento continua - Mesmo com essa possível redução relativa do efeito da ilha de calor, os pesquisadores ressaltam que o aumento da temperatura urbana continua ocorrendo. Na prática, o cenário projetado indica que o planeta e as cidades estarão mais quentes, com diferença térmica menor entre a cidade e o campo em algumas regiões.
Metodologia utilizada - Para chegar às projeções, os pesquisadores combinaram três fontes principais de informação incluindo dados de satélite, usados para medir a temperatura da superfície nas cidades; modelos climáticos globais, que simulam cenários de aquecimento do planeta; e técnicas de aprendizado de máquina, capazes de estimar como o efeito da ilha de calor pode evoluir em diferentes ambientes urbanos.
A metodologia permitiu analisar cidades de médio porte, que normalmente ficam fora dos modelos climáticos tradicionais, focados em grandes metrópoles.
Maior Risco - O estudo destaca que muitas cidades tropicais devem registrar aumento significativo da ilha de calor urbana. Entre os exemplos citados pelos pesquisadores estão centros urbanos como Ouagadougou, em Burkina Faso; Niamey, no Níger; Khartoum, no Sudão; além de cidades asiáticas como Karachi, no Paquistão; e Ahmedabad, na Índia.
Nessas regiões, o aumento da intensidade da ilha de calor pode superar 0,5 °C além do aquecimento regional, ampliando riscos associados a ondas de calor.
Desafios - Os pesquisadores destacam que cidades de médio porte, categoria em que se encaixa Campo Grande, concentram população crescente e estão entre as menos estudadas em projeções climáticas globais.
Entender como o aquecimento urbano se comporta nesses centros é fundamental para planejar políticas de adaptação, reduzir riscos à saúde e ampliar estratégias de arborização e planejamento urbano capazes de amenizar os efeitos do calor nas próximas décadas.
Outras informações sobre o estudo estão disponíveis na Revista PNAS.
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