Renato Vessani- Redação Vicentina Online *
O policial rodoviário federal Ricardo Hyun Sun Moon, 46 anos, disse em seu depoimento à Polícia Civil do Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) da região central, onde foi indiciado em flagrante por homicídio, que decidiu atirar em direção à caminhonete do empresário Adriano Correia do Nascimento, 33, que já morou em Vicentina, na manhã do último sábado (31), após “ver um objeto escuro na mão de uma pessoa dentro do veículo.”
Ainda segundo o depoimento, Moon alegou que agiu em legítima defesa pelo fato de Nascimento ter tentado lhe atropelar mesmo após ter se identificado como policial, na avenida Ernesto Geisel.
“A caminhonete Hilux trafegava em alta velocidade na rua Pimenta Buena e realizou uma manobra de conversão, adentrando bruscamente na avenida Ernesto Geisel, na pista do meio, quase colidindo com meu veículo”, disse o policial no depoimento.
“Ao passar pelo veículo Hilux, o condutor deste jogou o carro em minha direção. Tive que diminuir a velocidade e desviar. No cruzamento com a rua 26 de Agosto, ele parou atrás de mim e me senti ameaçado”, completou Moon aos investigadores.
O policial rodoviário federal continuou dizendo que decidiu descer do veículo com sua mão sobre a arma de trabalho. “Estava fardado, apenas com uma camisa listrada sobre o uniforme. Iria para a rodoviária pegar um ônibus para assumir meu posto em Corumbá (a 419km de Campo Grande)”, disse.
Segundo Moon, em todo o momento ele pediu que os ocupantes do veículo levantassem as mãos e mostrassem estar armados. E que as vítimas não só recusaram como passaram lhe ofender. “Dois dos ocupantes desceram (da Hilux) e me cercaram. Me senti ameaçado e por isso saquei a pistola, mas apontando para baixo”, disse.
Ainda segundo o depoimento do acusado, os integrantes da Hylux teriam ficado nervosos ao ver que ele tirou seu celular e ligou para a Polícia Militar. No seu relato, após a ligação o grupo tentou fugir e o motorista quase lhe atropelando. “Senti a caminhonete em minhas pernas e instintivamente, em reação de defesa, diante da injusta agressão, apertei o gatilho e efetuei vários disparos”, disse.
No depoimento, Moon diz que viu o tal “objeto de cor escura” nas mãos do ocupante que estava no banco traseiro da Hylux, durante essa fuga. O acusado pelo agente era o adolescente de 17anos, baleado duas vezes nas pernas e que recebeu alta médica na Santa Casa na manhã desta segunda-feira (2). Seu pai segue internado com o braço esquerdo quebrado e escoriações sofridas após o carro bater em um poste na mesma via.
Histórico – Ainda no Depac Centro, o policial rodoviário federal valorizou sua carreira para justificar seu ato. Primeiro disse que trabalha na região da fronteira e que por já ter prendido membros de facções criminosas nos três anos de atuação como investigador em Mogi Guaçu (interior de SP), vive sob “constante estado de atenção.”
Também destacou que jamais respondeu processo criminal ou administrativo por sua atuação. “Reagi dessa maneira apenas para preservar minha integridade física. Não tinha intenção de atentar contra a vida de nenhum dos ocupantes do veículo,mesmo porque não os conheço”, afirmou, no depoimento.
Na noite deste domingo, o juiz José de Andrade Neto, plantonista da Vara Criminal da Primeira Região de Campo Grande, negou o pedido de prisão preventiva por 30 dias feito pela Polícia Civil e permitiu que Moon responda o processo em liberdade.
Em seu despacho, o magistrado alega que "somente o clamor popular não é necessário para justificar o pedido."
"Por mais que vivamos época onde reina uma aparente sensação de insegurança, em que a sociedade clama por um endurecimento da legislação, o fato é que um Estado democrático de direito a restrição da liberdade de alguém somente deve se dar quando há elementos concretos indicando a necessidade da segregação", disse Neto, valorizando a falta de antecedentes do acusado e o fato de ter endereço fixo e acompanhado sem tentar fugir durante todo o trabalho da Polícia Militar e da perícia no local do ocorrido.
"As pessoas do velório me salvaram", diz amigo de empresário morto - Sobrevivente do ataque a tiros que matou o empresário Adriano Correia do Nascimento, 33 anos, na manhã de sábado (31), o supervisor comercial Agnaldo Espinosa da Silva, 48, agradece a participantes de um velório por sua vida e a do filho, um estudante, de 17. Segundo ele, foram os gritos das testemunhas que impediram que o policial rodoviário federal Ricardo Hyun Sun Moon, 46, de também atirar neles.
“Quando meu amigo (Nascimento) bateu a caminhonete, já morto, no poste, ele (Moon) desceu do carro dele e veio em nossa direção com a arma em punho. Ele ia terminar o serviço. Só mudou de idéia porque o pessoal do velório começou a gritar e chamou a atenção”, disse Silva.
As testemunhas relatadas pelo supervisor estavam no velório de um jovem morto por um policial militar, na região do Horto Florestal, na avenida Ernesto Geisel, e viram o momento que Moon desceu de sua Mitsubishi Pajero prata e foi até as vítimas que estavam no Toyota Hilux branca com a arma em punho.
“Estava com o braço (esquerdo) quebrado. E pulei a janela do carro. Comecei a puxar meu filho desesperado. Íamos morrer também. Foi no instinto para sobreviver”, completou Silva ao Campo Grande News ainda na Santa Casa, onde segue internado em observação. O filho recebeu alta nesta manhã após passar por cirurgia para a retirada das duas balas nas pernas, onde foi atingido.
“Ele (adolescente) está abalado, chora toda hora. Esse cara destruiu a gente, arruinou a vida de uma pessoa de bem, empreendedora, honesta, que dava emprego para mais de 40 pessoas e nunca fez mal a ninguém”, disse a vítima.
Revolta – Apesar de indiciado em flagrante pela Polícia Civil, Moon responderá o processo em liberdade após a Justiça negar neste domingo (1) o pedido de prisão preventiva por 30 dias. O policial alega legítima defesa.
Segundo Nascimento, o motivo alegado pelo atirador é “revoltante.” “Como ele pode dizer um negócio desses. Em nenhum momento fizemos menção de estarmos armados. Ele poderia ter atirado para o alto, mas acertou nove vezes o carro, duas vezes o coração do Adriano. Nós não agredimos ele”, disse.
O representante comercial diz que será difícil superar a morte do amigo, que conhece há cerca de 12 anos. No último sábado, eles haviam ido comemorar o aniversário do adolescente. “Falei que estava sem dinheiro e o Adriano se prontificou a pagar a festa. Era um momento de alegria, estávamos nos divertindo. Iríamos dormir um pouco e depois ir para a chácara dele (em Bandeirantes, a 70km de Campo Grande) onde aproveitaríamos o resto do dia”, disse.
Para a vítima, não há justificativa para o ato. “Ele diz que a gente ultrapassou ele, mas não foi nada ofensivo. Meu amigo pediu desculpas ainda. Não fechamos ele. Estávamos felizes, sem pressa. Quando ele (Moon) desceu armado, o Adriano não falou nada. Quem falou fui eu. Ainda me chamou para voltar à caminhonete quando viu a arma”, disse.
Em todo momento, segundo Silva, Moon foi agressivo. “Dizia sem parar que era polícia e ia chamar as viaturas, mas não se identificava. Só ficou com a arma na mão. Nossa conduta todo o tempo era para se chamar a viatura. É um delinqüente. Um descontrolado que não pode ser policial, cuidar da segurança dos outros”, completou.
Nascimento era dono da Sushi Express, um restaurante oriental na região do Jardim dos Estados. O amigo diz ter esperança de que a justiça seja feita. “Se não der pela dos homens, que seja pela de Deus. Confio nele”, disse.
* Com informações do Campo Grande News
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